Escadaria Selarón — 23 anos, 215 degraus e a obsessão de um homem pelo Brasil

Escadas Icônicas do Mundo Episódio 07 · Escadaria Selarón · Rio de Janeiro, Brasil · 1990–2013

Escadaria Selarón — 23 anos, 215 degraus e a obsessão de um homem pelo Brasil

Jorge Selarón começou a cobrir os degraus de sua escada com azulejos em 1990 como brincadeira. Morreu em 2013 sem ter terminado. No meio, criou a obra de arte pública mais visitada do Brasil e a prova de que a escada pode ser o maior legado de uma vida inteira.

Por Aldo Ramos · Escadas Especiais® · Escadas Icônicas do Mundo

Local
Santa Teresa, Rio de Janeiro, Brasil
Período
1990–2013 (obra contínua)
Artista
Jorge Selarón (1947–2013)
Degraus
215
Azulejos
~2.000, de mais de 60 países
Material
Azulejos cerâmicos + espelhos + mosaicos

Em 1990, Jorge Selarón — pintor chileno radicado no bairro de Santa Teresa no Rio de Janeiro — começou a cobrir os degraus da escada pública em frente à sua casa com fragmentos de azulejos que encontrava descartados pela cidade. Segundo ele mesmo, foi uma brincadeira. Uma forma de se apropriar do espaço ao redor.

O que começou como intervenção espontânea tornou-se obsessão. Selarón passou a receber azulejos de visitantes de todo o mundo — de fãs que enviavam pelo correio, de turistas que traziam da viagem, de embaixadas que contribuíam com peças nacionais. A escada cresceu. Os azulejos vieram de 60 países diferentes. O verde, o amarelo e o vermelho — as cores do Brasil que Selarón havia adotado como pátria afetiva — passaram a dominar a composição.

Em 23 anos de trabalho contínuo, Selarón transformou uma escada pública ordinária de Santa Teresa em 215 degraus cobertos por aproximadamente 2.000 azulejos — a obra de arte pública mais fotografada e visitada do Brasil, e uma das escadas mais reconhecíveis do mundo.

Em 10 de janeiro de 2013, Selarón foi encontrado morto na própria escada. Tinha 65 anos. A escada não estava terminada. Nunca estaria — ele havia dito isso várias vezes.

215Degraus
2.000Azulejos
60+Países de origem
23Anos de obra
Jorge Selarón · O homem e a obra

Um chileno que amou o Brasil mais do que qualquer brasileiro que encontrou na escada

Jorge Selarón nasceu em 1947 em Ovalle, Chile. Pintor autodidata, viajou por mais de 50 países antes de se fixar no Rio de Janeiro nos anos 1980 — atraído, segundo ele, pela mistura de cor, calor e caos que a cidade oferecia. Instalou-se numa casa em Santa Teresa, o bairro boêmio que sobe os morros entre o Centro e a Lapa, e ali ficou pelo resto da vida.

Selarón vendia pinturas para manter a obra da escada. Quando não tinha dinheiro para novos azulejos, vendia pinturas. Quando não tinha dinheiro nem para tinta, retirava azulejos da própria casa — das paredes, do banheiro, da cozinha — e colocava na escada. A prioridade era clara: a escada antes de qualquer coisa.

A paleta verde-amarelo-vermelho que domina a escada não é a bandeira do Brasil — é a combinação que Selarón escolheu como declaração de amor ao país que o adotou. Quando perguntado por que aquelas cores, ele respondia: “Porque é o Brasil. E o Brasil me salvou.”

A morte em circunstâncias nunca completamente esclarecidas (encontrado carbonizado na própria escada) transformou Selarón em mártir e a escada em monumento. A Prefeitura do Rio administra a escada hoje como patrimônio cultural da cidade.

Selarón provou que você não precisa de arquiteto, de orçamento, de cliente ou de prazo para criar uma escada que o mundo inteiro conhece. Você precisa de uma convicção suficientemente irracional para trabalhar nela 23 anos sem parar.

— Aldo Ramos · Escadas Especiais®

O que a Escadaria Selarón ensina sobre identidade, obsessão e legado

Do ponto de vista técnico, a Escadaria Selarón não tem o que ensinar a um engenheiro ou arquiteto. Os degraus são de concreto comum coberto por cerâmica fragmentada — sem inovação estrutural, sem sofisticação de materiais, sem engenharia invisível.

O que ela ensina é outra coisa — e talvez mais importante: o poder da intenção absoluta sobre um único objeto ao longo de toda uma vida.

Selarón não dividiu seu talento por múltiplos projetos. Não diversificou. Não aceitou que a escada estivesse “boa o suficiente” em nenhum momento dos 23 anos. Cada vez que achava que havia terminado, encontrava algo para melhorar, substituir, adicionar. A escada foi o projeto de vida — no sentido mais literal possível.

Toda a obra de arte verdadeira compartilha algo com a Escadaria Selarón: a recusa em aceitar que “bom o suficiente” seja bom o suficiente. Não é sobre perfeição técnica. É sobre a insistência em continuar quando não há nenhuma razão objetiva para isso além da convicção de que o objeto merece mais.
Perguntas sobre a Escadaria Selarón

Onde fica a Escadaria Selarón no Rio de Janeiro e como chegar?

A Escadaria Selarón fica na Rua Manuel Carneiro, no bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro. A entrada inferior da escada está na esquina com a Rua Joaquim Silva, na Lapa — um dos bairros boêmios mais famosos do Rio. A forma mais fácil de chegar é de táxi ou aplicativo até o endereço. De metrô, a estação mais próxima é a Estação Carioca (Linha 1/2), de onde se caminha cerca de 15 minutos pela Rua do Lavradio e a Lapa. A escada pode ser visitada a qualquer hora — é espaço público. A melhor hora para fotografar é pela manhã, quando ainda há poucas pessoas e a luz lateral ilumina os azulejos diretamente.

Quem foi Jorge Selarón e qual era sua nacionalidade?

Jorge Selarón nasceu em 1947 em Ovalle, Chile. Era de nacionalidade chilena mas se identificava profundamente com o Brasil, onde viveu a maior parte de sua vida adulta. Pintor autodidata, percorreu mais de 50 países antes de se fixar no Rio de Janeiro nos anos 1980. Viveu no bairro de Santa Teresa até sua morte em 10 de janeiro de 2013, quando foi encontrado carbonizado na própria Escadaria Selarón. As circunstâncias de sua morte nunca foram completamente esclarecidas — o inquérito policial concluiu por morte acidental, mas a investigação foi controversa. Selarón é considerado hoje um patrimônio cultural do Rio de Janeiro, e a escada que construiu ao longo de 23 anos é uma das obras de arte pública mais visitadas do Brasil.

De onde vieram os azulejos da Escadaria Selarón?

Os azulejos da Escadaria Selarón vieram de mais de 60 países, por meio de diversas rotas: doações espontâneas de visitantes que traziam azulejos de viagens, envios pelo correio de fãs de todo o mundo, contribuições de embaixadas e governos estrangeiros com peças características de seus países, e azulejos que o próprio Selarón retirava de casas demolidas em Santa Teresa e nos arredores. Selarón também usou azulejos retirados das paredes e pisos de sua própria casa quando o dinheiro escasseava. Algumas peças têm origem documentada — há azulejos portugueses (os famosos azulejos de Lisboa), holandeses, espanhóis e de Delft — mas muitos têm origem desconhecida. A mistura intencional de origens era parte da proposta: a escada como mosaico do mundo, com o Brasil como centro e pano de fundo.

A Escadaria Selarón está em algum clipe de música ou filme famoso?

Sim, a Escadaria Selarón é um dos cenários mais filmados do Rio de Janeiro. Entre as produções mais conhecidas: o clipe de “Beautiful” de Snoop Dogg feat. Pharrell Williams (2003) foi parcialmente filmado na escada e ajudou a projetá-la internacionalmente. O clipe foi um dos mais tocados do mundo naquele ano e expôs a escada a uma audiência de décadas de fãs internacionais. Além disso, a escada aparece em dezenas de produções de Bollywood (por razões semelhantes às do Chand Baori — o apelo visual é imenso), em documentários sobre arte urbana e cultura carioca, e em inúmeras publicações de moda. A escada é considerada ponto obrigatório do roteiro turístico do Rio, ao lado do Cristo Redentor e do Pão de Açúcar.

A escada tem conservação e manutenção? Quem cuida dela hoje?

Desde a morte de Selarón em 2013, a Escadaria é administrada pela Prefeitura do Rio de Janeiro como patrimônio cultural da cidade. Há uma equipe de conservação responsável pela limpeza e manutenção dos azulejos, e peças danificadas por vandalismo ou desgaste são substituídas — idealmente por azulejos semelhantes, mas em casos de peças únicas não replicáveis, por peças que mantenham o tom cromático e o espírito da composição. A conservação é um desafio permanente: a escada fica exposta ao clima tropical carioca, com sol intenso, chuvas de verão e alto fluxo de visitantes. Selarón havia dito repetidamente que a escada nunca estaria terminada — e a equipe de conservação interpreta isso como licença para continuar adicionando azulejos doados por visitantes de todo o mundo, mantendo vivo o princípio de que a obra está sempre em construção.

Escadas Especiais® · O legado começa no primeiro degrau

23 anos numa escada. Qual é a escada que você quer que dure?

Cada projeto é o início de algo que vai sobreviver à obra. Construímos com essa consciência.

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